quarta-feira, 10 de novembro de 2010

O casamento da Susi


Quando era pequena tinha uma Susi linda e querida. A gente não tinha tantos brinquedos quanto nossos filhos tem hoje e essa boneca era especial. Eu morava com meus pais e minha irmã em um prédio pequeno, com dois apartamentos por andar. Nós no 301 e nossa melhor amiga no 302. E somos amigas até hoje, mas agora a distância não é de um corredor e sim da ponte aérea. Nem preciso dizer que três meninas entre 6 e o 8 anos não se desgrudavam, não é? Quando não estávamos na casa de uma, estávamos na da outra. As portas viviam abertas.

Um dia, no meio da brincadeira, nem sei quem teve a brilhante ideia, minha Susi foi pedida em casamento pelo Feijãozinho da minha melhor amiga. Lisonjeada, a Susi aceitou e começaram os preparativos para o grande evento, com participação de nossas mães. Minha mãe costurou um vestido de noiva para minha boneca. Não se fazem mais mães como antigamente. Tia Ima, mãe da Rê, fez o bolo. Foi um longo período de noivado, até porque o vestido precisava ficar pronto. Enquanto isso, o Feijãozinho original morreu, perdeu o enchimento e tivemos que trocar por outro que eu achava até mais fofo, mas era careca. Quer dizer, se tirasse o chapéu ficava careca. Este período de noivado foi importante para avaliar se o amor era verdadeiro. Eu olhava para o noivo e pensava: "Como minha filha tão bem criada e educada poderia ter escolhido este traste de marido? Que noivo mais molenga!" E outros pensamentos de sogra.

Até que, na data marcada, a sogra da noiva que não tinha uma Susi para chamar de sua resolve fazer um adendo ao contrato de casamento: "Depois de casados não poderemos separá-los. Um dia ele dormirá na sua casa e no outro dia ela dormirá aqui!". Peralá! Como assim? Você quer dizer que minha boneca favorita não será mais minha? Ah, não. Aquela pequena que sofri as dores de tirar as travas de segurança da caixa? Quem irá pentear seus cabelos dourados? Quem dormirá com ela aos pés da cama? Quem experimentará roupinhas de crouche feitas pela vovó? Quem irá alimentá-la com as delícias de vento servidas em pratos de plástico da China? Ah, não. E foi assim que uma brincadeira de criança inspirou Holywood, quando minha Susi tornou-se a "Noiva em fuga".

Claro que comemos o bolo, mas desta vez não houve casamento. Este aconteceu apenas anos mais tarde, quando a linda boneca apaixonou-se perdidamente por um moreno alto, bonito e sensual. Sarado, como diríamos hoje, com um abraço protetor e acolhedor. E o melhor, era da minha irmã, assim, continuariam morando no mesmo armário de brinquedos, só mudariam de prateleira. O príncipe com sorte desta vez era o Peposo, um lindo ursão de pelúcia.

E viveram felizes para sempre.



Escrito em 22 de abril de 2010 por Tati Pastorello do Blog Perguntas em Resposta.



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