segunda-feira, 26 de maio de 2014

Em outro século...



Nasci em outro século, outra era, em outro mundo. Antes de chegar aqui, tive que meter a caneta em uma fita cassete para enrolar de volta a parte mastigada pelo aparelho de som. Não foi fácil, mas ouvindo conselhos do próprio He-Man, aprendi a sobreviver. Aprendi, em uma realidade, onde um Ctrl + Z era impensável, que tudo tem jeito, ainda que o Liquid Paper deixasse as marcas dos nossos erros no papel.

Sou feita de coisas que não existem mais. Sou feita de fazer cartucho funcionar na base do sopro. De ter que pesquisar na Barsa e copiar, ipsis literis, a vida de Dom Pedro de Alcântara para o meu caderno Click. De trocar papel de carta com as amigas e de gostar de prova só pelo cheirinho do papel passado no mimeógrafo.

Vim de um mundo onde os dinossauros vinham nas embalagens das revistas. Juntei ossos e montei meus próprios esqueletos jurássicos em casa e brilhavam no escuro. Vim de uma era em que o status era medido pela quantidade de Tazos que você tinha ou pela quantidade que você conseguia derrubar em uma única tacada. Vim de um tempo em que as pessoas eram discriminadas pelas cores rosa ou amarelo, azul ou preto, vermelho ou verde. Mas depois de morfar todos combatiam juntos bonecos de massa imaginários. Barbies e Comandos em Ação faziam parte do mesmo universo, onde as bonecas ganhavam roupas de heroínas e viravam namoradas dos super heróis.  

Tive que assistir ao mundo que eu conhecia ser extinto e substituído por outro. Cheguei sem entender muito bem por que usar um computador e estranhei o fato de não ter o lado B em um CD. Apesar disso tudo, aprendi a moldar como uma Amoeba, ou desaparecia pra sempre, como a necessidade de rebobinar um filme depois de assistir.

Hoje não estranho as pessoas movendo o corpo todo pra jogar vide game, por mais que fosse motivo de zoação, acompanhar o pulo do Sonic com o controle ou fazer as curvas do Enduro com o corpo totalmente inclinado como se fosse ajudar a fazer as curvas. Hoje pesquiso na Internet com a mesma facilidade com que eu resolvia as atividades do Almanacão de Férias da Turma da Mônica. 

Hoje sou uma pessoa diferente, eu cresci, mas meus joelhos calejados de Lego não em deixam esquecer de onde vim. 

[Desconheço Autoria]

Um comentário:

Anônimo disse...

Nossa! Texto fantástico! Saudoso e emocionante.